A Polícia Federal identificou indícios de lavagem de dinheiro na estrutura financeira da cinebiografia Dark Horse, filme que retrata o ex-presidente Jair Bolsonaro. As suspeitas vieram à tona após a queda do sigilo de investigações desmembradas do caso envolvendo o Banco Master, determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Projeções milionárias e discrepância de mercado
Entre os materiais analisados pelos investigadores está um arquivo batizado de “Plano de Negócio Capitão do Povo V5”, localizado no aparelho telefônico do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O documento traçava metas ambiciosas para a bilheteria da produção nos cinemas, divididas em três cenários distintos com base na cotação da moeda americana.
No panorama pessimista, a estimativa era de US$ 45 milhões, equivalentes a R$ 230,4 milhões. Já a projeção conservadora apontava para US$ 70 milhões (R$ 358,4 milhões), enquanto a meta otimista projetava impressionantes US$ 100 milhões, o que na cotação atual representaria cerca de R$ 512 milhões.
Comparação com recordes do cinema nacional
Para a corporação policial, as metas financeiras estabelecidas no planejamento chamaram atenção por desviarem drasticamente da realidade da indústria cinematográfica do país. O próprio relatório policial confronta os números com o desempenho comercial de Minha Mãe É uma Peça 3, lançado em 2019 e considerado até então o recordista de bilheteria do cinema brasileiro, com faturamento aproximado de R$ 120 milhões na época.
O documento da polícia destaca que o cenário mais otimista planejado para a obra sobre Bolsonaro ultrapassaria o recorde histórico nacional em mais do triplo, equiparando-se ao desempenho financeiro de grandes blockbusters de Hollywood no mercado internacional. Embora a corporação ressalte que a disparidade nos valores por si só não comprove a ocorrência de um delito, o abismo entre as previsões e a realidade mercadológica torna indispensável aprofundar as buscas sobre a real finalidade da operação e o destino do dinheiro.
Orçamento e participação de investidores
De acordo com os dados reunidos pelos agentes, o custo total estimado para tirar o projeto do papel era de US$ 25 milhões. O planejamento financeiro detalhava a comercialização de 50 cotas de patrocínio individuais, com preço unitário de US$ 500 mil, atingindo exatamente o montante necessário para o orçamento.
Deste total de cotas disponíveis, a investigação aponta que o investidor identificado como número três — correspondente a Daniel Vorcaro — teria adquirido 48 unidades. Isso representaria um aporte financeiro de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 122 milhões, direcionados pelo ex-banqueiro diretamente para a execução do longa-metragem.
