O registro fotográfico de magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF) aos risos gerou forte repercussão e críticas sobre uma suposta insensibilidade da corte diante do atual cenário político brasileiro.
A anatomia de um julgamento moral
Capturado na semana passada, o retrato mostrava os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luiz Fux em um momento de descontração. Embora o ministro Flávio Dino fosse o autor dos chistes que motivaram a cena, ele acabou de fora do enquadramento que viralizou nas redes sociais.
O episódio evoca a clássica cena de Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, em que o personagem Carlitos pega uma bandeira vermelha caída para devolvê-la e acaba preso no meio de um protesto. Para os críticos e o tribunal policialesco das redes sociais, a imagem bastou para condenar os magistrados, negando-lhes o direito básico à descontração e à inocência.
A gravidade institucional e o peso da história
Apesar de o tribunal enfrentar um dos períodos mais complexos de sua existência, a exigência de solenidade absoluta desconsidera a própria história da corte. Críticos severos apontam o momento atual como o pior da instituição, mas é preciso lembrar que o fundo do poço democrático do STF ocorreu em janeiro de 1969, quando o AI-5 cassou ilegalmente ministros históricos como Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal.
Nos bastidores da Suprema Corte, magistrados com visões jurídicas profundamente divergentes conviven e até mesmo cultivam amizades pessoais, como é o caso do praticante de jiu-jitsu Flávio Dino e do professor da modalidade Luiz Fux. Trata-se de divergências técnicas que não impedem momentos de leveza em meio a debates acalorados sobre tentativas de golpe e defesas da democracia.
O perigo da patrulha ideológica
A onda de indignação contra as gargalhadas dos ministros faz parte de uma escalada de ataques que ganhou força nos últimos anos. Trata-se de uma tentativa contínua de deslegitimar o Judiciário, ecoando discursos autoritários que flertam com o fechamento da corte e a perseguição a seus membros.
No entanto, exigir que magistrados mantenham uma postura robótica e trágica o tempo todo é ignorar a humanidade essencial ao exercício da justiça. O riso flagrado decorreu de piadas autodepreciativas, demonstrando que os ministros debatem teses jurídicas duras sem necessariamente carregar ódios pessoais irreconciliáveis.
O humor como antídoto ao autoritarismo
A patrulha que condena o riso no STF lembra os tempos sombrios da censura cultural, quando órgãos oficiais proibiam manifestações artísticas sob o pretexto de defender a moral e os bons costumes. A tentativa de transformar uma simples fotografia descontraída em um símbolo de escárnio revela o modus operandi da polícia política digital.
Em última análise, o humor franco e inteligente cumpre um papel civilizatório fundamental, ajudando a moralizar os costumes sem depender da humilhação alheia. Prefere-se mil vezes a leveza de ministros capazes de sorrir a um tribunal consumido pelo ódio e pela rigidez estéril de censores implacáveis.
