Uma ex-funcionária de uma empresa em São Paulo afirma ter sido vítima de um esquema de manipulação psicológica e coerção praticado por uma clínica espiritual, o que a teria levado a desviar mais de R$ 17 milhões para custear rituais religiosos.
O início da relação com a clínica espiritual
O contato com o estabelecimento ocorreu em março de 2021, período em que a mulher cumpria isolamento social devido à pandemia de Covid-19 e lidava com um quadro depressivo. Atraída por recomendações de influenciadoras digitais no Instagram, ela contratou uma consulta de tarô por R$ 250 em um local conhecido na época como Clínica Céu Azul. Durante o atendimento, a médium responsável alegou que a vida da vítima estava bloqueada por feitiços.
Para reverter a suposta energia negativa, foram exigidos pagamentos sucessivos por trabalhos com velas. Pouco depois, a cliente foi repassada a um mentor espiritual da instituição, que passou a exercer forte controle psicológico sobre sua rotina, alegando que ela sofria de magia pesada vinda de seu ambiente corporativo.
Isolamento, controle e transferências milionárias
Sob ameaças de que tragédias atingiriam seus pais e seu animal de estimação caso recusasse os pagamentos, a vítima foi submetida a jornadas de rituais que exigiam noites inteiras sem dormir. A privação de sono agravou sua vulnerabilidade mental, tornando-a ainda mais dependente das orientações da clínica.
Para acobertar o esquema, os dirigentes exigiam que ela redigisse e fotografasse declarações de próprio punho afirmando que os repasses financeiros eram voluntários. O montante transferido via Pix à instituição superou R$ 1 milhão ao longo de 20 meses. Quando suas economias particulares se esgotaram, a mulher passou a subtrair verbas da empresa onde trabalhava.
Investigação criminal e desdobramentos judiciais
Após a descoberta das fraudes corporativas, a ex-funcionária foi demitida por justa causa e tornou-se alvo de uma investigação criminal por furto qualificado e fraude continuada. Conforme os autos do inquérito, ao menos R$ 9,4 milhões dos recursos desviados da companhia foram direcionados às contas da clínica e de seus sócios, Mayara Aristides e Estevo Yanko Gaichi. Mesmo após perder o emprego, ela ainda contraiu empréstimos para repassar mais R$ 260 mil ao local.
O Ministério Público estadual inicialmente promoveu o arquivamento de uma investigação sobre o caso, decisão que passou por contestação e foi encaminhada para análise da instância revisional do órgão. A defesa da mulher classifica o episódio como um sequestro emocional e aponta que ela sofreu intensa pressão psicológica.
Outras denúncias e o posicionamento da defesa
O estabelecimento investigado, que já adotou nomes como Equilíbrio e Luz Espiritual e atualmente opera como Espaço Núcleo Espiritual, também é alvo de outra denúncia de estelionato registrada na Polícia Civil paulista. Neste segundo caso, outra mulher relata ter gastado mais de R$ 800 mil após ser atraída por propagandas de influenciadoras na internet, procedimento que também teve pedido de arquivamento pelo Ministério Público.
Procurada para comentar os fatos, a defesa da clínica negou veementemente a prática de estelionato e quaisquer irregularidades. Os representantes legais afirmam que a instituição sempre atuou com transparência, alertando os clientes de que o meio espiritual não oferece garantias e que o sucesso dos trabalhos depende da conduta de cada consulente.
