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Mudança climática altera regime de chuvas e reduz entrada de água no Sistema Cantareira em 15 anos

As referências históricas que durante décadas nortearam o planejamento hídrico em São Paulo já não correspondem ao cenário climático atual. Ao longo dos últimos 15 anos, entre os ciclos de 2010/2011 e 2024/2025, o Sistema Cantareira enfrentou uma transformação drástica em sua dinâmica de recarga, caracterizada pela redução do volume de água que chega às represas e pela alteração substancial na frequência e no formato das precipitações.

Defasagem prolongada na vazão e nos índices pluviométricos

Uma análise de 191 meses realizada com base em registros diários desde outubro de 2010 revela a dimensão da escassez:

  • 68% dos meses apresentaram acumulados de chuva inferiores às médias históricas vigentes.
  • 91% dos períodos registraram vazão natural abaixo do esperado para o manancial.

O ano hidrológico, compreendido entre outubro de um ano e setembro do seguinte, sofreu rebaixamento quase generalizado em suas médias ao longo dessa década e meia. Com exceção de junho, quando a retração atingiu somente a vazão, todos os demais meses do calendário tiveram quedas simultâneas tanto na quantidade de precipitação quanto no volume de água afluente.

Aquecimento, solo seco e tempestades concentradas

Além da diminuição no volume pluviométrico total, o aumento das temperaturas médias tem dificultado a recuperação dos reservatórios. De acordo com Camila Viana, diretora-presidente da SP Águas, o calor intenso resseca a terra e compromete a capacidade de infiltração.

“As nossas projeções, inclusive da curva de contingência, já consideram um parâmetro de 60%, 70%, 80% da média histórica, que é o que a gente tem visto. O comportamento do passado não é mais representativo do futuro. A gente não sabe o que esperar”, destaca a dirigente, ao ressaltar que temporais rápidos e torrenciais escorrem pela superfície sem recompor os lençóis freáticos.

O professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que eventos extremos se multiplicaram nas últimas quatro décadas. Segundo o pesquisador, a quantidade de dias com precipitações superiores a 100 milímetros quadruplicou no período, exigindo novas diretrizes para o abastecimento em âmbito nacional frente às assimetrias regionais de chuva.

Debate sobre governança e intervenções estruturais

Para o coordenador do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), Amauri Pollachi, a alteração no regime hidrológico, que rompeu com os padrões dos anos 1970 e 1980, demanda um gerenciamento público rigoroso com foco prioritário no consumo humano e na preservação de mananciais. Pollachi também argumenta que o estímulo econômico à redução do consumo é mais indicado do que manobras de diminuição de pressão na rede.

Em resposta aos desafios de longo prazo, a SP Águas reforça que tem atuado em conjunto com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e investido na interligação de bacias, como obras de transposição no Alto Tietê para aumentar a resiliência metropolitana. Paralelamente, a Sabesp declarou que monitora de perto as oscilações climáticas e os efeitos de fenômenos como o El Niño, sustentando que as intervenções em andamento oferecem segurança operacional para o abastecimento da Grande São Paulo até 2026.

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