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Enterrar fios em cidades brasileiras: desafios e custos

A cada tempestade, a cena se repete em várias metrópoles brasileiras: quedas de árvores, postes danificados e bairros inteiros sem energia elétrica. O impacto econômico desse cenário é expressivo, como demonstrado em dezembro de 2025, quando apenas cinco dias de blecaute resultaram em uma perda de R$ 2,1 bilhões no faturamento do comércio e de serviços em São Paulo.

A ilusão do subsolo livre e organizado

Nas redes sociais, a comparação entre o visual poluído das ruas brasileiras e o céu limpo de capitais estrangeiras gera um apelo quase unânime pela conversão da fiação aérea em subterrânea. No entanto, a execução vai muito além de simplesmente retirar os postes e fechar as valas. Abaixo dos calçadões e das vias públicas, já existe uma malha complexa que inclui redes de água, esgoto, gás, drenagem e telecomunicações.

Sem levantamentos precisos, plantas atualizadas e forte coordenação entre as concessionárias e o poder público, o risco é apenas transferir a desordem visual para o subsolo. Ou seja, a confusão de cabos deixa de ser vista, mas continua existindo e gerando novos problemas operacionais.

O impasse jurídico e a lentidão das obras

Tentativas anteriores de solucionar o problema enfrentaram barreiras burocráticas e legais. Em São Paulo, uma lei municipal de 2005 determinava metas de conversão de redes, mas acabou suspensa pela Justiça em 2015 devido a conflitos de competência entre as esferas municipal e federal na gestão de energia e telecomunicações.

Mesmo com intervenções pontuais realizadas em áreas como o Centro, o Mercado Municipal e a Avenida Santo Amaro — que somavam 47 quilômetros de vias atendidas e 1.059 postes removidos até agosto de 2025 —, o ritmo é considerado lento. A cidade ainda carece de dados básicos, como o custo total da obra, os locais prioritários de intervenção e os responsáveis por cada etapa do processo.

Como viabilizar o projeto de fiação subterrânea

Para que a transição ocorra de forma segura, é fundamental um esforço conjunto que envolve o mapeamento detalhado do subsolo, o licenciamento ambiental e a atuação coordenada de órgãos reguladores como a Aneel e a Anatel. Além disso, as empresas de energia e telecomunicações precisam arcar com os projetos e a manutenção, enquanto a sociedade participa ativamente da definição de prioridades.

Modelos de parcerias público-privadas despontam como alternativas viáveis. Em Curitiba, por exemplo, a prefeitura estruturou junto ao BNDES uma PPP para enterrar até 120 quilômetros de cabos, com investimentos estimados em R$ 1,2 bilhão. A iniciativa caminha junto a metas ambiciosas de plantio de árvores, o que obriga os planejadores a resolverem um dilema urgente: onde posicionar os dutos subterrâneos sem prejudicar o crescimento das raízes e das copas?

Definindo prioridades para o futuro urbano

Experiências internacionais em metrópoles como Paris, Nova York, Londres e Seul mostram que a solução exige tempo, continuidade e divisão justa de custos entre governos, fundos específicos, tarifas reguladas e empresas exploradoras. No Brasil, o início dessa jornada não deve seguir uma regra genérica, mas sim focar em áreas críticas.

Corredores hospitalares, centros históricos, zonas com arborização intensa e regiões vulneráveis a temporais devem liderar a lista de urgências. Enquanto o planejamento urbano não integrar de forma inteligente o verde das árvores e a infraestrutura das redes subterrâneas, o cenário de vulnerabilidade continuará ameaçando a rotina das cidades a cada nova chuva.

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