Manifestações de preconceito racial na primeira infância revelam como o racismo é internalizado precocemente. Situações registradas em uma creche municipal localizada no Vidigal, na zona sul do Rio de Janeiro, evidenciam que crianças pequenas já absorvem e reproduzem dinâmicas de exclusão e rejeição à própria identidade.
Sinais precoces de autorrejeição racial
Entre os episódios documentados no cotidiano escolar, destaca-se o caso de uma criança de apenas três anos que se recusou a aceitar ajuda de uma professora negra, além de outra que rejeitou brincar com uma boneca que não fosse branca. No mesmo ambiente, uma profissional chegou a ignorar o choro de um aluno enquanto esticava violentamente seus cabelos cacheados.
Esses comportamentos foram investigados na dissertação de mestrado da pedagoga Fernanda Branco, defendida em 2023 no CEFET/RJ. A pesquisa conecta a prática docente diária com teorias das relações étnico-raciais para entender como a sociedade impõe a branquitude como único padrão de beleza e valor, gerando processos dolorosos de autorrejeição entre os pequenos.
A reprodução de desigualdades na escola
Pensadores como Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento já alertavam que as instituições de ensino não são neutras. Historicamente, a ausência de referências positivas sobre a história e a cultura africanas e afro-brasileiras promoveu o que a autora define como necroeducação — uma morte simbólica na qual corpos negros são invisibilizados ou desvalorizados desde os primeiros anos de vida.
Para contrapor essa dinâmica, o estudo defende correntes pedagógicas como a afrocentricidade, a Pretagogia e o letramento racial crítico. Essas abordagens sustentam que o pertencimento, a ancestralidade e a valorização do corpo devem ocupar o centro da formação escolar, e não a periferia.
O papel estratégico da literatura infantil
Nesse cenário de disputa por representatividade, os livros ganham protagonismo. A pesquisa analisa criticamente obras consagradas, apontando que mesmo clássicos antirracistas por vezes colocam personagens brancos no centro da trama, enquanto figuras negras ocupam papéis secundários.
Como alternativa, o trabalho propõe a expansão do repertório literário nas salas de aula com títulos como Amor de Cabelo, Da Minha Janela, Chuva de Manga e obras voltadas à valorização da cultura afro-brasileira. Contudo, a autora ressalta que a simples substituição de exemplares ou o cumprimento burocrático da Lei 10.639/2003 não bastam sem uma formação teórica profunda dos educadores.
Como símbolo dessa transformação pedagógica, a sala de leitura da creche no Vidigal foi rebatizada em homenagem à escritora Sônia Rosa. O gesto sintetiza a urgência de escolher quem protagoniza as narrativas infantis, garantindo que as crianças negras cresçam com orgulho, dignidade e autoestima.
