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Engenheirando: A engenharia por trás do voto: o que acontece entre o teclado da urna e o resultado da eleição

O dia em que a democracia vira um sistema de engenharia

A campanha eleitoral já está nas ruas. O eleitor vê bandeiras, carreatas, santinhos, debates e pedidos de voto. Entretanto, por trás dessa camada visível existe uma operação de engenharia de sistemas que precisa funcionar, ao mesmo tempo, em escolas urbanas, aldeias, comunidades ribeirinhas, áreas rurais e no exterior. É uma operação que combina eletrônica embarcada, criptografia, desenvolvimento de software, logística, energia, telecomunicações, auditoria, acessibilidade, gestão de riscos e comunicação pública.

Nas Eleições Gerais de 2026, o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro, com eventual segundo turno para presidente e governadores em 25 de outubro. O eleitor fará seis escolhas: deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente. A votação será realizada das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, em todo o país.

O tamanho do problema é um dado de engenharia por si só. O Tribunal Superior Eleitoral informa que 158.745.463 eleitoras e eleitores estarão aptos a votar e que serão colocadas em operação 563.910 urnas eletrônicas. Não se trata apenas de fabricar ou distribuir máquinas: é preciso garantir que cada equipamento receba a configuração correta, opere por horas, preserve o sigilo, produza um resultado verificável e entregue seus arquivos a uma cadeia de totalização capaz de suportar um pico nacional de dados.

Escolha em 2026 Quantidade ou regra Sistema eleitoral
Presidente e vice-presidente 1 chapa Majoritário, com eventual segundo turno
Governadores e vice-governadores 27 chapas Majoritário, com eventual segundo turno
Senadores 54 vagas, duas por unidade da Federação Majoritário simples
Deputados federais 513 vagas Proporcional
Deputados estaduais 1.035 vagas Proporcional
Deputados distritais 24 vagas Proporcional

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Minha tese, nesta edição da Engenheirando, é simples: a confiança na eleição não deve depender de fé na tecnologia nem de desconfiança automática; deve depender de evidências, controles independentes e capacidade de explicar os limites do sistema. Engenharia séria não promete milagres. Ela identifica riscos, cria barreiras, mede resultados, registra falhas e corrige o projeto.

1. A urna não é um computador comum

A urna brasileira é um equipamento dedicado, desenvolvido a partir de requisitos definidos pela Justiça Eleitoral. Ao longo de três décadas, quatro empresas venceram licitações para fabricar diferentes gerações do equipamento, mas o projeto não é um produto de prateleira escolhido livremente pelo fornecedor. O TSE informa que já foram produzidos 14 modelos e 1.487.115 equipamentos, sempre conforme especificações e supervisão do Tribunal.

Em 2026 serão utilizados quatro modelos: UE2022, UE2020, UE2015 e UE2013. Os dois mais recentes somam 439.468 unidades, o equivalente a 77,9% das urnas previstas. A UE2020 trouxe, segundo o TSE, aumento de capacidade de processamento em relação à UE2015, tela sensível ao toque no terminal do mesário e certificação ICP-Brasil do perímetro criptográfico do hardware.

Uma das decisões arquiteturais mais importantes é o isolamento da urna durante a votação. A Justiça Eleitoral afirma que o equipamento não opera conectado à internet, ao Wi-Fi, ao Bluetooth ou a uma rede externa. Isso muda completamente o tipo de ameaça que precisa ser enfrentada: um atacante remoto não pode simplesmente acessar a máquina pela internet e alterar o voto de uma seção em funcionamento. A segurança, porém, não termina no isolamento físico. Ela continua na preparação das mídias, na assinatura dos programas, na verificação da inicialização, na custódia dos equipamentos e na validação dos arquivos após o encerramento.

Uma apresentação técnica do TSE sobre a UE2022 detalha a existência de um Módulo de Segurança Embarcado, de mecanismos de inicialização segura e de processadores dedicados a funções de proteção. A informação é valiosa para compreender a engenharia interna, mas deve ser lida com o cuidado que se espera de qualquer análise técnica: uma apresentação institucional descreve a arquitetura e os controles previstos; ela não substitui a auditoria do código, do processo de fabricação, da cadeia de compilação ou da operação real.

Esse é um ponto que costuma desaparecer no debate político. “Não estar conectada à internet” não significa “ser magicamente imune a qualquer risco”. Significa que uma classe inteira de ataques remotos é eliminada ou fortemente reduzida. Restam outras classes de risco — cadeia de suprimentos, configuração, acesso físico, falhas de software, erro humano, transporte, credenciais e infraestrutura — que precisam de controles próprios.

2. O primeiro controle é provar que a urna começa vazia

Antes da votação, a Justiça Eleitoral prepara cada equipamento com os dados daquela eleição: candidaturas, eleitores habilitados, seção, zona e demais parâmetros necessários. A chamada tabela de correspondência associa a urna física à seção para a qual foi preparada. Essa associação é crucial, porque impede que um arquivo produzido por um equipamento seja aceito como se tivesse vindo de outra urna ou seção.

No início do dia, a urna emite a zerésima, relatório que demonstra que não há votos registrados antes do primeiro eleitor. É um controle simples, visível e poderoso: a seção começa com uma fotografia pública do estado inicial do equipamento. Ao final, a urna imprime o Boletim de Urna (BU), documento que registra a votação daquela seção. O BU é afixado no local de votação e também integra os arquivos digitais destinados à transmissão.
Durante o voto, o equipamento registra as escolhas no Registro Digital do Voto (RDV). O objetivo do RDV é permitir conferência e eventual recontagem sem identificar a ordem dos votantes. O sistema precisa resolver dois requisitos que parecem contraditórios: registrar cada voto para que a soma possa ser verificada e, ao mesmo tempo, impedir que alguém descubra em quem uma pessoa específica votou. Por isso, a transparência eleitoral não significa publicar a identidade do eleitor associada à sua escolha; significa disponibilizar artefatos de conferência sem quebrar o sigilo constitucional.

O ponto fundamental é que o resultado nasce na seção. A transmissão não cria os votos; ela transporta arquivos produzidos após o encerramento. Essa distinção é a chave para entender por que o BU impresso é tão importante: ele funciona como uma cópia pública do resultado local, acessível a fiscais, partidos, jornalistas e cidadãos presentes no local de votação.

3. Apuração, transmissão, totalização e divulgação não são a mesma coisa

É comum ouvir que “o TSE soma os votos” como se existisse uma única operação central, escondida e instantânea. A realidade é mais organizada. Existem etapas diferentes, com funções e controles diferentes.

A apuração ocorre na seção eleitoral, quando a urna encerra a votação e produz os arquivos e o BU. A transmissão leva a mídia de resultado ao ponto de recebimento. A totalização soma os boletins de urna que foram recebidos e validados, aplicando as regras correspondentes a cada cargo. A divulgação disponibiliza os resultados para a sociedade e para os partidos.

O próprio TSE resume a sequência da seguinte forma:

“Depois de receber os dados, os TREs dão início ao procedimento de totalização dos votos (soma de todos os boletins de urna) e, em seguida, à divulgação dos resultados.”

Em locais de difícil acesso, como determinadas aldeias indígenas e comunidades ribeirinhas, o TSE prevê transmissão via satélite. Em outras localidades, a mídia de resultado é encaminhada ao ponto de transmissão. O sistema apresentado pelo Tribunal para o Teste Público de Segurança descreve um fluxo com Transportador, JEConnect, módulos de recebimento, filas de mensageria, validações de assinatura e gravação em banco de dados.

A velocidade do resultado decorre dessa arquitetura distribuída. Em vez de transportar cédulas físicas para uma central e iniciar uma contagem manual, o país recebe arquivos assinados, verifica sua origem e soma os BUs validados. Isso reduz o tempo de transporte e de tabulação. Mas rapidez não deve ser confundida com ausência de verificações. Um sistema veloz pode ser mais seguro justamente porque valida automaticamente grandes volumes de dados em etapas repetíveis.

A apresentação técnica do TSE também mostra o papel das filas de mensageria. Em linguagem de engenharia, elas funcionam como amortecedores: os pacotes podem chegar em grande quantidade, ser organizados e processados por módulos distintos sem exigir que todos os componentes trabalhem no mesmo ritmo. A arquitetura evita transformar o banco de dados em um único gargalo. Ainda assim, como reconhece a própria apresentação, os diagramas são uma visão esquemática e não substituem a análise de todos os controles físicos e operacionais.

4. A segurança é uma cadeia de camadas, não um único teste

Antes do pleito, entidades fiscalizadoras têm acesso aos sistemas eleitorais para inspeção e auditoria. O Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais, realizado no ano anterior, convida especialistas a executar planos de teste contra sistemas de geração de mídias, votação, apuração, transmissão, recebimento e auditoria. O objetivo não é produzir uma demonstração de que nenhum defeito existe; é criar uma oportunidade controlada para encontrar fragilidades e corrigi-las antes da eleição.

Esse detalhe é essencial. Se um investigador encontra um problema no teste, isso não significa automaticamente que uma eleição foi fraudada. Significa que o teste cumpriu sua função de revelar uma condição que precisa ser corrigida, documentada e novamente verificada. O TSE informa que, no ciclo de 2025, foram executados 29 planos de teste por 26 investigadoras e investigadores, em 64 horas de testes.

Depois das correções, ocorre o Teste de Confirmação. Em seguida, os programas são submetidos à assinatura digital e à lacração em cerimônia pública, com participação de entidades fiscalizadoras. Para 2026, o TSE informa que os códigos-fonte ficaram disponíveis para inspeção desde 2 de outubro de 2025 e que a cerimônia de assinatura e lacração se encerra em 4 de setembro de 2026. [6]
No dia da eleição, existe outra verificação: o Teste de Integridade. Urnas preparadas e lacradas são sorteadas publicamente, retiradas da votação normal e levadas a um ambiente de auditoria. Voluntários preenchem cédulas de papel com votos conhecidos; durante o horário oficial, esses votos são digitados nas urnas sorteadas, sob gravação e acompanhamento. Ao final, compara-se o resultado eletrônico com a contagem física das cédulas. Os votos do teste não entram no resultado oficial, e a seção de origem recebe uma urna de contingência.

O Teste de Integridade é uma verificação direta e didática da correspondência entre entrada conhecida e resultado produzido pela urna. Entretanto, ele não testa sozinho todas as camadas da eleição. Ele não substitui a inspeção do código-fonte, o exame da cadeia de compilação, a assinatura dos sistemas, a auditoria da transmissão, a totalização, a logística e a fiscalização posterior. É precisamente por isso que se deve falar em defesa em profundidade.

5. O que uma auditoria independente encontrou

O debate público melhora quando deixa de tratar o TSE como única voz autorizada. Em auditoria concluída em 2023, o Tribunal de Contas da União analisou as fases do sistema eletrônico de votação, da verificação das urnas à totalização, considerando segurança, confiabilidade, auditabilidade e transparência. O TCU acompanhou 1.163 boletins de urna no dia das eleições de 2022 e cruzou 6,3 milhões de informações de uma amostra de 4.577 seções, sem detectar divergências.

O resultado não deve ser transformado em propaganda de infalibilidade. O próprio TCU registrou recomendações de aperfeiçoamento, inclusive sobre dificuldades pontuais na leitura de QR Codes pelo aplicativo Boletim na Mão. A falha de leitura não produziu divergência nos dados, porque os boletins foram impressos e afixados, mas o episódio ilustra uma regra importante da engenharia: um sistema confiável também precisa aprender com problemas que não alteraram o resultado.

A literatura acadêmica acrescenta uma segunda cautela. Estudo publicado pela ACM analisou relatórios públicos de edições anteriores do Teste Público de Segurança e documentou vulnerabilidades e limitações metodológicas em versões passadas do sistema. O sentido desse achado não é afirmar fraude nas eleições; é mostrar que testes públicos podem encontrar problemas reais, que devem ser corrigidos, e que nenhum teste representa todos os cenários possíveis.

Outro estudo, publicado na revista científica Cadernos EBAPE.BR, trata da transparência e da accountability de algoritmos governamentais no caso da votação eletrônica brasileira. A contribuição é especialmente útil para a comunicação pública: transparência não é apenas abrir arquivos; é permitir que as pessoas compreendam como entradas, processos e saídas se relacionam.

6. Fake news: cinco afirmações e o que os dados permitem dizer

A desinformação eleitoral costuma aproveitar uma parte verdadeira, retirar o contexto e transformá-la em acusação. A resposta mais forte não é repetir slogans, mas reconstruir o mecanismo e indicar o limite da evidência.

Alegação recorrente O que as fontes permitem afirmar Limite que precisa ser preservado
“A urna fica conectada à internet e pode ser alterada remotamente.” A arquitetura descrita pela Justiça Eleitoral não usa internet, Wi-Fi ou Bluetooth durante a votação. [5] [10] Isso reduz ataques remotos; não elimina a necessidade de controles físicos, de software e logísticos.
“A urna não é auditável.” Há zerésima, BU, RDV, logs, inspeção de código, TPS, Teste de Integridade e auditorias posteriores. [4] [8] [10] Auditoria exige participação, acesso aos artefatos e compreensão técnica; transparência não é sinônimo de facilidade absoluta.
“Qualquer vulnerabilidade descoberta no TPS prova fraude.” O TPS existe para encontrar fragilidades e corrigi-las; o TSE prevê Teste de Confirmação. [8] Uma vulnerabilidade em ambiente de teste não equivale a exploração em eleição real.
“O BU não pode ser conferido.” O BU é impresso ao fim da seção, afixado no local e usado como referência pública. [3] [4] [9] A conferência de BUs é uma etapa; não substitui a análise de todo o sistema.
“Um teste com resultado igual prova que todo o processo é infalível.” O Teste de Integridade verifica a correspondência entre votos conhecidos e o resultado de urnas sorteadas. [4] Ele não cobre, sozinho, todas as etapas de software, logística, transmissão e totalização.

A página oficial Fato ou Boato, mantida pela Justiça Eleitoral e alimentada também por instituições parceiras de checagem, reúne esclarecimentos sobre essas e outras narrativas. Ela é uma boa porta de entrada para o leitor, mas a recomendação jornalística continua válida: consultar a fonte primária, verificar a data e procurar a documentação original.

7. A engenharia precisa explicar seus limites

Defender a urna eletrônica não significa negar que sistemas complexos possam falhar. Significa comparar afirmações com evidências. A urna sem conexão de rede é um fato arquitetural; a assinatura digital é um controle; o Teste Público de Segurança é uma oportunidade de encontrar vulnerabilidades; o Teste de Integridade é uma verificação amostral e operacional; o TCU é uma camada externa de fiscalização. Cada elemento tem uma função, uma força e um limite.

A democracia se beneficia quando as instituições comunicam essas diferenças. Dizer que a urna é “100% inviolável” é uma má escolha de linguagem: cria uma promessa que a engenharia não pode garantir e oferece à desinformação um alvo fácil. Mais responsável é dizer que o sistema foi projetado com isolamento, assinaturas digitais, controles de inicialização, auditorias públicas, redundâncias, procedimentos de contingência e fiscalização externa — e que suas regras e resultados podem ser examinados por diferentes atores.

Minha conclusão é que a eleição brasileira não é confiável porque uma máquina “sabe” em quem votar. Ela é confiável na medida em que a sociedade consegue acompanhar uma cadeia de decisões e registros: o cadastro alimenta a preparação; a preparação configura a urna; a zerésima documenta o ponto de partida; o eleitor registra o voto; o BU torna o resultado local visível; a mídia assinada transporta os arquivos; os sistemas validam a origem e a integridade; a totalização soma os BUs; e as auditorias permitem confrontar o discurso com evidências.

É nessa cadeia — e não em vídeos virais, frases absolutas ou apelos à fé — que devemos procurar a engenharia das eleições. Em 2026, quando as campanhas disputarem nossa atenção, vale lembrar que também estará em funcionamento uma das maiores operações de confiabilidade e processamento de dados do país. Fiscalizá-la, compreendê-la e exigir que ela seja aprimorada não é desconfiar da democracia. É praticar cidadania com método.

*Joel Rodrigues dos Santos, engenheiro civil, especialista em Engenharia Ferroviária e MBA em Gestão de Negócios. Com mais de 25 anos de experiência em infraestrutura urbana, gestão pública e projetos de grande porte, atuou em empresas públicas de infraestrutura urbana de grande porte, como Gerente de Projetos em obras aeroportuárias, portuárias e offshore, e como Assessor da Câmara Municipal de Guarulhos. Com liderança em associações de classe de engenharia das mais diversas, dedica-se ao associativismo profissional e à democratização do conhecimento técnico. Sua atuação como colunista busca aproximar a engenharia do cotidiano da população, promovendo consciência urbana, participação cidadã e qualidade de vida nas cidades e valorização profissional.

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